Thursday, July 02, 2009

Tatuagem





Espalho-me nos oceanos
Afundo-me e deposito-me
No seu fundo.
Não vejo,
Sinto laivos de medo,
não o posso ter,
apenas o devo ver quando abrir os olhos
e vir
um corpo
e outro
e mais outro
e outro ainda
em filas contínuas,
contíguas a mim.
Nós somos apenas mais um
que tenta respirar
e expirar os sopros
que em volta de nós se instalam.
O tempo de tanta ente que está ali
ao mesmo tempo que estou.
Há um relógio que por mais que ande
e que o faça, não passa.
O ciclo é contínuo e eterno.
Não passa.
Repete-se en cadências
rápidas
lentas.
O tempo é unico.
O tempo é uma tatuagem feita pela nossa propria mão.

Thursday, January 17, 2008

Três




O corpo entra numa dança de trás para a frente. o ritmo frenético não o deixa parar ; Sons hediodérnicos, mais modernos que a própria moda. Sons eléctricos, cerebrais constituidos por sinapses descontínuas. Vagas contínuas de impulsos. Que se chocam.






Vês? Não te disse que ia ser assim. As folhas podres e os umbrais húmidos. Ves?, querias tanto, e agora? e agora? escorregas no lodo mal cheiroso e enlameado.Espalhas-te e desfazes-te, e contigo o cheiro.




Carambolas,
bolas, bolas.
Intruso que rebola e pula e salta e um dois, um dois.
Gosto desses que fazem um dois, um dois.
Agora senta.
o intruso de farda!
Limpa!
Vincada!
ASSEADA!!!!
Obedece!
Nem te atrevas a respirar.
Já!
um dois,
um dois.
Esquerda.
um dois
Direita.
um dois.
Deita, rebola.
um dois
Já!
um dois
Agora podes ir.
Obedece!
um dois.
Já me cancei.
Não ouses olhar-me.


Sou má porque amo os demais.
ahahahahahahahaha

Tuesday, January 15, 2008

Enrola-se





Fui a um sotão sem fim,
que fica aqui,
mesmo por cima de mim.
Subi passo a passo
uma escada
meia
empenada.
Ecoam os passos.
Secos
e singulares.
O vento sopra forte.
Roça-se no telhado.
Sinto-o.
Cada vez mais perto,
mais perto...
chego!
e o vento.
Fecho os olhos.
Escuto-o.
Mexe-se
por entre teias
e restos.
Sento-me.
Imortais.
Ouço.
Uma cegueira sonora.
enrola-se.
Sem ser surda.
Atenta.
O velho gira discos.
Espera.

Thursday, December 20, 2007

O




Desço as escadas,
passo a passo.
Sem cair.
Apoio-me com uma mão
no corrimão
verde escuro e macio,
tão frio.
As escadas de madeira não muito escura.
O chão geométrico.
Um chão de madeira não muito escura,
segura-me,
não me deixa afundar.
Cheira-me a cera no ar.
Aspiro-a com sofreguidão.

Vejo uma porta entreaberta,
Espreito.
Mas, não olho.
Não quero ver.
Não me apetece.
Vi.
Cabeças no sofá;
Não lhes reconheço o formato.
A lareira crepita.
Cheira a cera
e
o silêncio mais frio
que a neve.

Já é tarde.
O cheiro a cera
e os olhos fechados.
Apanho um susto
quando,
Menina, não vá por aí!
Não vou porquê?
Estamos na hora da gente que já cá não está.
Parei.
Sinto o cheiro a cera
e o silêncio dos que estão.






Thursday, December 06, 2007

Ar




O céu plúmbeo

Acolchoado.

Um chão oxidado

Simétrico.

Os dias são

Espectrais

Pessoas radiações.

Há ferro no ar.

Matéria em fermentação
A mutação.

Clivagens interespaciais.

Consequências.

Monday, September 10, 2007

"Respirei fundo e escutei o velho e orgulhoso som do meu coração. Eu sou. Eu sou. Eu sou."

Sylvia Plath

Sunday, August 19, 2007

Dançar





Foi por aqui e por ali que te vi.
Andavas tombado nas ruas, que te viam por aqui e por ali e por além também.
Sonhavas e choravas porque querias ser.
Andavas de noite na cama.
Ou de cama em cama.
De rua em rua .
De mesa em mesa.
Sonhavas com os sonhos de outros.
Alimentavas-te das carnes, das ilusões e da inocências dos que acreditavam naquilo.
Ias e vinhas nos sapatos cambados dos tombos que davas por onde ias andando.
Andavas e rias.
Tão só na tua essência.
Observavas tudo com muita atenção,
o chão,
o céu,
paredes ,
redes
e tudo o que era visível aos olhos e ao sonho .
Pensavas nas pessoas,
no que as fazia serem assim,
tão cruas e tão nuas,
tão maquinais e sós.
Doces criaturas de hábitos.
Por momentos tudo esqueces.
Esperas o inesperado de capa e espada.
As envolvências momentâneas tornavam-te seda.
Lá ias tu.
Fitavas o dia e a noite com um olhar inverso aos sentidos.
Por vezes, à noite no teu nicho eles vinham-te visitar.
Vias paredes rosadas e inclinadas num quarto espacial.
Sentias a cama dançar.